A vida é efémera e feita de momentos efémeros. Para muitos, desperdiçar um momento pode significar o desperdiçar de uma vida. Devido a fatores sociais, psicológicos e, especialmente, tecnológicos somos injetados pelo “FOMO” (the fear of missing out ou, em bom português, o medo de perder a oportunidade de viver algo muito bom).
Este “medo”, definido como uma ansiedade social generalizada, desvia-nos lentamente do verdadeiro objetivo da vida: viver e criar memórias.
Evoco Pierre Nora, destacado historiador francês falecido em junho deste ano, que tão bem nos ensinou acerca da importância da memória e identidade. Na sua obra Les Lieux de Mémoire (Os Lugares da Memória) percebemos como a memória sempre precisou de “lugares” que ajudam uma comunidade a ancorar o seu passado. Estes “lugares de memória”, mais do que localizações geográficas, são significados, conceitos, celebrações, símbolos, textos, imagens, sentimentos ou experiências que uma comunidade vai vivendo e que, ao longo do tempo, constroem a narrativa de cada sujeito. Narrativa essa que sem transmissão, de geração em geração, perde-se.
Quantos de nós já percorremos as ruas de Aveiro e recordações vieram à tona? Os locais são os nossos arquivos e a memória é uma experiência ativa, ligada aos sentidos e ao espaço. De forma semelhante, as redes sociais convidam-nos (quase) diariamente a viajar no tempo através de notificações que nos recordam momentos passados.
Os Novos Média oferecem-nos o potencial de auxiliar a partilha e a transmissão, impedindo que a memória se torne etérea e esquecida na consciência coletiva. Pensemos, por exemplo, na arte urbana de Aveiro: um mural é um lugar de memória efémero. Quando partilhado online contribuímos para a sua preservação, antes que se perca.
Preservar e transmitir a memória não é uma ação vazia, supérflua; pelo contrário, tem um propósito. Quando preservada, damos-lhe dimensão, corpo e visibilidade; e encolhemos a saudade e a sensação de perda. Tornamo-nos guardiões ativos dos “lugares de memória” da nossa cidade. Quanta magia cabe nisto? Quão bom é darmos oportunidade ao outro de viver, saber e sentir o que outrora foi vivido? É este o nosso papel, enquanto cidadãos digitais.
Um dia escrevi no meu diário: “…porque a mudança é a única constante da vida, existe uma coisa que não muda: a memória”. É nosso dever usar a tecnologia para garantir que este tesouro — as memórias coletivas e o nosso sentido de pertença a Aveiro — chegue, enriquecido, às gerações futuras.