Falar dos jovens e da sua relação com as notícias implica ir além da idade ou das plataformas digitais que utilizam. Trata-se de uma geração formada num período específico, marcada por experiências históricas, culturais e tecnológicas, que moldam a forma como interpreta a realidade social.
De acordo com o Digital News Report Portugal (2025), os jovens portugueses afastaram-se dos telejornais e da imprensa tradicional, preferindo formatos curtos e visuais. Entre os 18 e os 24 anos, a Internet (26%) e as redes sociais (24%) já superam a televisão (33%) como principal via de acesso às notícias. Destacam-se o Instagram e o TikTok para vídeo noticioso, embora o Facebook ainda seja a principal rede para o consumo de notícias. Esta mudança coloca um desafio: como pode o jornalismo reconquistar esta geração e manter o seu papel enquanto garante de uma sociedade informada?
No âmbito da investigação que estou a desenvolver, uma constatação tornou-se clara: os jovens não se afastaram da atualidade. O que mudou foi a forma como a vivem. Cresceram num contexto de aceleração informativa, em que a notícia surge entre notificações, vídeos curtos e fluxos constantes de estímulos. O acesso é imediato, mas a permanência é curta. Esta condição geracional ajuda a compreender por que razão o problema central já não está na falta de informação, mas na dificuldade em construir uma compreensão da realidade. A informação chega em múltiplos formatos e dispersa-se rapidamente, dificultando a criação de ligações, contextos e continuidade. O consumo noticioso torna-se fragmentado, marcado por interrupções constantes.
Importa sublinhar que este padrão não revela apatia cívica. Pelo contrário, reflete uma transformação profunda na forma como a atenção é distribuída no ambiente digital. A juventude é, tradicionalmente, um período sensível à incorporação de novas experiências e quando estas são moldadas por ritmos acelerados e mudanças constantes, produzem formas distintas de perceção e interpretação do presente.
É neste enquadramento que o modelo narrativo tradicional do jornalismo linear, sequencial e fechado começa a revelar limitações. Para muitos jovens adultos, a notícia já não é um percurso único do início ao fim, mas um conjunto de entradas possíveis que raramente se articulam num todo coerente. Esta fragmentação não é apenas técnica; é cognitiva e cultural.
Daqui surgem questões decisivas para o jornalismo contemporâneo. Como comunicar fenómenos complexos a uma geração formada num contexto de mudança permanente? Como criar condições para a compreensão sem ignorar os seus modos de atenção? E como adaptar formatos sem comprometer o rigor editorial e a diversidade de perspetivas?
Talvez o desafio central seja este: num tempo marcado pela velocidade e pela abundância de informação, informar já não basta. É necessário criar experiências noticiosas que ajudem a transformar contacto em compreensão. Para uma geração profundamente ligada ao presente, o futuro do jornalismo poderá depender da sua capacidade de permanecer e não apenas de aparecer.