Fronteira Digital: a conexão que prometia unir tornou-se a nossa maior divisão?

Abrir um jornal e ler as notícias ao som do seu folhear é um ato em vias de extinção. A compra de jornais em formato físico tem diminuído à medida que os novos media oferecem novos meios, canais, atores e formatos para o consumo noticioso. As novas gerações, que cresceram inseridas em ambientes digitais, são nativas das redes sociais. Estas plataformas servem para nos manter conectados com amigos, mas também para receber conteúdos de entretenimento e, muitas vezes, notícias em primeira mão sobre a atualidade.

O consumo de notícias nas redes sociais é voraz: a temporalidade é escassa, os formatos são curtos e visuais, e as fontes multiplicam-se. Num ecossistema em que todos podem ser consumidores e criadores, conteúdos profissionais misturam-se com conteúdos amadores.

Este fenómeno gera problemas bem conhecidos: a disseminação de fake news, as câmaras de eco que reforçam crenças, a simplificação excessiva de temas complexos e a emergência de novos líderes de opinião – os influencers – que, por vezes, têm mais visibilidade do que especialistas.

Tudo isto cria as condições ideais para a erosão de uma realidade partilhada. Cada indivíduo recebe conteúdos “à medida”, o que promove a polarização e fragmenta as visões do mundo.

Este fenómeno é especialmente relevante entre os mais jovens, que não adquiriram o hábito de folhear um jornal e, por isso, têm menor exposição a narrativas diversificadas. A minha investigação de doutoramento com jovens entre os 15 e os 29 anos revela resultados estatisticamente significativos: jovens alinhados com a extrema-direita tendem a confiar menos nos media jornalísticos tradicionais e a depositar maior confiança nas redes sociais e em influencers digitais como fontes de informação. Este cenário revela o poder profundo e preocupante das plataformas digitais ao moldar a perceção da realidade e as atitudes políticas das novas gerações

Qual é o caminho? Adotar uma perspetiva protecionista, banindo o telemóvel em contexto escolar, mas deixando os algoritmos livres fora da escola? Não impor restrições em nome da liberdade de expressão? Ou continuar a responsabilizar utilizadores e pais, ignorando os homens por trás das máquinas? Seja qual for a resposta, será necessário agir rapidamente. Está na hora de correr atrás do prejuízo.  

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