Para algumas pessoas, a ideia de entrar num avião é suficiente para as impedir de viajar. Outras acabam por embarcar, mas à custa de uma ansiedade intensa. O corpo reage com suores frios, boca seca e coração acelerado, enquanto a mente permanece em alerta constante. Em qualquer dos casos, pode não ser apenas um medo normal perante situações que sentimos como perigosas ou fora do nosso controlo: pode ser sinal de uma fobia. Estima-se que a fobia de voo afete entre 1 e 3% da população adulta. No entanto, quando se inclui também quem sente medo ou desconforto ao voar, mesmo sem preencher critérios clínicos de fobia, os números sobem de forma considerável. E o impacto vai muito além do desconforto: adiam-se férias, evitam-se visitas a familiares ou perdem-se oportunidades profissionais.
A ciência mostra que enfrentar gradualmente os medos é uma das formas mais eficazes de os superar. É o princípio das chamadas terapias de exposição: confrontar o estímulo temido, de forma controlada, até que a ansiedade diminua. Mas como recriar em ambiente clínico a experiência de embarcar num avião? Levar paciente e terapeuta repetidamente ao aeroporto é caro, pouco prático e quase impossível de organizar.
É aqui que entram as tecnologias de realidade virtual (RV). Usando óculos de RV, o paciente pode ser transportado para um aeroporto ou para dentro de um avião, com sons e imagens muito próximos da realidade. O terapeuta controla a intensidade da experiência e adapta o processo ao ritmo de cada pessoa. Assim, pode-se praticar, repetir e até interromper a viagem, algo impossível num voo real.
Além do realismo dos sons e das imagens, a tecnologia permite acrescentar elementos de jogo e de narrativa. O percurso até ao avião pode ser dividido em etapas com objetivos, como num jogo, e enquadrado numa história que dê sentido à experiência. Desta forma, a repetição necessária ao tratamento torna-se menos aborrecida e a curiosidade ou o desejo de avançar ajudam, pouco a pouco, a suavizar o peso da ansiedade.
A RV não substitui a experiência real de viajar, mas pode oferecer um espaço seguro e controlado para treinar e ganhar confiança. O encontro entre a psicologia clínica e as ciências e tecnologias da comunicação abre, assim, uma perspetiva promissora: transformar o tratamento das fobias em experiências seguras, motivadoras e mais próximas da vida real.