Há relações humanas que atravessam gerações, culturas e sistemas políticos sem nunca perderem relevância. A relação entre professor e aluno é uma delas como é a de educador e criança. Não se trata apenas de uma ligação funcional, mediada por currículos, programas ou avaliações. Trata-se de uma relação profundamente humana, muitas vezes estruturante da identidade individual e até coletiva de uma comunidade.
Milhões de crianças e jovens, em todo o mundo, têm nos seus professores/educadores as primeiras grandes referências fora do núcleo familiar e em muitos casos a única referência com formação superior (fator que possivelmente também contribui para que crianças de famílias socialmente mais desfavorecidas sigam a área da educação em Portugal). São eles que ensinam a ler e a escrever, ensinam Matemática, História e outras áreas, mas também a pensar diferente, a questionar, a respeitar o outro e a compreender o mundo. Por isso, a figura do professor/educador ultrapassa largamente os limites da sala. De tal forma que a um docente exige-se um comportamento exemplar não apenas no exercício da sua profissão, mas também na esfera pública e privada, numa exigência ética que não é colocada, com a mesma intensidade, a muitas outras profissões.
Esta expectativa social revela algo essencial: o professor/educador não é visto apenas como um técnico do ensino, mas como um modelo de cidadania. Cada gesto, cada palavra, cada atitude pode deixar marcas duradouras e pode influenciar o futuro de uma criança. É uma responsabilidade imensa, tantas vezes invisível e raramente acompanhada do reconhecimento social e material que lhe corresponderia.
Ao mesmo tempo, os professores e os educadores são o verdadeiro motor dos sistemas educativos. Nenhuma reforma curricular, nenhuma inovação tecnológica, nenhuma política pública tem impacto real sem contar com estes profissionais qualificados, motivados e valorizados. São ainda agentes de transformação da sociedade, aqueles que, no quotidiano, traduzem grandes princípios em práticas concretas. Por isso, se queremos sociedades mais justas, mais críticas e mais democráticas, precisamos inevitavelmente de mais professores, mas acima de tudo de bons professores.
É precisamente aqui que se revela uma das maiores contradições do nosso tempo. Nunca se falou tanto da importância da educação e, paradoxalmente, nunca foi tão difícil atrair e reter professores. Segundo estimativas da UNESCO, o mundo precisará de cerca de 44 milhões de novos docentes até 2030 para garantir uma educação de qualidade para todos. Esta escassez afeta tanto países ricos (onde se engloba Portugal) como países em desenvolvimento, sendo particularmente grave na África Subsaariana e no Sul da Ásia.
As causas são conhecidas e persistentes: baixa atratividade da carreira, salários pouco competitivos, excesso de burocracia, sobrecarga de trabalho, falta de apoio institucional e desgaste emocional. Muitos professores abandonam a profissão em busca de melhores condições noutros setores, levando consigo experiência, saber pedagógico e estabilidade relacional — elementos fundamentais para a qualidade educativa.
As consequências são profundas. A falta de professores compromete o acesso universal à educação, aumenta o número de alunos por turma, fragiliza o acompanhamento individual e acentua desigualdades sociais. Mais grave ainda, transmite-se às novas gerações a ideia de que ensinar é uma missão nobre, mas pouco valorizada — uma visão que corrói o próprio futuro da educação.
Por isso, quando se discute o reconhecimento da relação professor-aluno como património da humanidade – como se discutiu e aprovou a proposta de considerar a Relação Professor-Aluno como Património da Humanidade apresentada e defendida pela Internacional da Educação (IE) e pela Fenprof na Conferência Mundial sobre os docentes (organizada pela UNESCO), que se realizou em Santiago do Chile no ano passado – a reflexão não pode ficar pelo plano simbólico. Reconhecer esta relação é reconhecer que não há educação de qualidade sem professores qualificados, respeitados e apoiados. É exigir mais professores, sim, mas sobretudo melhores condições para que possam exercer plenamente o seu papel. Acrescento ainda que, considerando a complexidade da profissão e o impacte que poderá ter nas vidas futuras das crianças e jovens, ter pessoas a lecionar sem competência para tal não deveria ser permitido.
Bem sabemos que o mundo de hoje é acelerado, dominado por métricas, resultados imediatos e soluções tecnológicas, mas ainda vale a pena parar e pensar: que sociedade estamos a construir se não cuidarmos daqueles que educam? Que sociedade estamos a criar se não temos os melhores e os mais qualificados a educar as nossas crianças? Proteger e valorizar a relação professor-aluno ou educador-criança é, em última instância, proteger a própria ideia de futuro.